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Número Especial

 

RETC 02 (Ano I, Vol II) – 2º Semestre de 2007 – ISSN 1981 5646
 
ENTREVISTA
 
 

Olga Tulik


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Bacharel e licenciada em Geografia, pela então Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Santos (SP), Mestra em Geografia Humana e Doutora em Ciências Humanas no Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e, Livre-Docente em Turismo e Lazer na ECA/USP, a Profa. Olga Tulik atuou na pós-graduação da UNIBERO e coordenou o curso de Turismo na Cásper Líbero.  Proprietária de um vigor intelectual instigante, continua atuando na orientação de Mestres e Doutores na pós-graduação da ECA/USP. Autora dos livros Turismo Rural (Editora Aleph) e Turismo e Hospedagem (Editora Roca), nesta entrevista ela trata sobre sua carreira num balanço que, segundo a própria, a emocionou.

 

 

Entrevista – Olga Tulik

 

 

O Prof. Mário Jorge a considera a melhor geógrafa de Turismo do Brasil. No agradecimento do seu último livro registrou ter uma profunda admiração e certa inveja da sua capacidade. Qual a posição da senhora perante estes sentimentos?

 

Não me considero a melhor geógrafa de Turismo do Brasil. Outros colegas atuam nesta área com muita propriedade e dedicação. Considero-me, porém, pioneira no estudo desse tema, vantagem que posso atribuir, em primeiro lugar, à idade que me permitiu chegar a essa área antes do aparecimento de pesquisadores mais jovens, ou seja, daqueles que nasceram depois de mim; em segundo, à oportunidade de poder estudar o Turismo, no início da criação dos cursos de bacharelado em Turismo no Brasil, momento em que tudo estava por ser feito. Agradeço as palavras do Professor Mário Jorge e sinto-me lisonjeada, principalmente por terem sido proferidas por um profissional que merece o meu respeito pela seriedade e originalidade que imprimiu a sua produção acadêmica. Sei, também, que, embora sem fundamento, a inveja que ele sente não é depreciativa. Esses sentimentos, na verdade, refletem longas e constantes discussões acadêmicas em virtude da proximidade de nossas áreas de pesquisa e das afinidades no estudo do Turismo. Compartilhamos uma amizade sincera e profunda, o que nos possibilita discutir, com franqueza e liberdade, inúmeras questões pertinentes ao Turismo e à vida acadêmica.

 

 

 Quando surgiu o desejo de ser geógrafa? É verdade que o sonho era se dedicar à área de artes?

 

Preciso recuar muito no tempo para relembrar minhas incursões no campo das artes, e que foi pouco duradoura, pois não ultrapassou a juventude. Como qualquer aluna de colégio administrado por religiosas, ainda menina, participei de peças de teatro e cantei no coral da igreja, e eu adorava essas atuações. Além disso, eu era sempre encarregada de discursar para personalidades que visitavam a instituição. Na minha juventude, comecei a escrever poesias, participei dos Jogos Florais de Santos e de concursos, tendo recebido algumas medalhas. Posteriormente, participei, por muitos anos, do Coral Vicentino, grupo que, naquela época, destacava-se na Baixada Santista e que gravou uma quadra de minha autoria em disco da antiga gravadora Chantecler. Jovem, ainda, tentei locução e novela na então Rádio Universal de Santos. O trabalho era voluntário e a falta de recursos financeiros levou-me a procurar uma alternativa que me garantisse o sustento. Dediquei-me, então, ao magistério, inicialmente, no antigo Curso Primário. Buscando crescer profissionalmente, resolvi ingressar num Curso Superior. A impossibilidade de mudar da Baixada Santista, onde residiam meus familiares e onde eu já estava empregada, me fez escolher, dentre os cursos oferecidos na região, aquele que mais me atraía. Naquele momento, discutiam-se questões relacionadas aos recursos naturais e à Ecologia, e a Amazônia ocupava destaque na mídia pela preocupação com a sua preservação. Vislumbrando a possibilidade de envolver-me com projetos de pesquisa e de atuação docente, resolvi optar pela Geografia na certeza de que, assim, eu poderia obter maiores conhecimentos sobre esses assuntos e atuar nas áreas pretendidas. Bacharel e licenciada em Geografia pela então Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Santos, direcionei minha carreira para essa área, atuando como docente no segundo grau e em cursinhos preparatórios para o vestibular. A busca pelo aprimoramento intelectual e profissional levou-me ao Mestrado em Geografia Humana e ao Doutorado em Ciências Humanas no Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e, mais tarde, já em 1994, à Livre-docência em Turismo e Lazer na ECA/USP.

              

 Quais foram as diferenças percebidas pela senhora na mudança de Santos para São Paulo?

 

Na verdade, sou natural de Curitiba. Residi em São Vicente e em Santos, a maior parte da minha vida, até mudar-me para São Paulo. A mudança para uma metrópole como São Paulo exigiu um longo período de adaptação a um ambiente assustador. Sentia falta da família, dos amigos e de tudo o que compunha o meu ambiente simples e acolhedor. No início, ainda cursando o Mestrado, no Departamento de Geografia da FFLCH, permanecia em São Paulo apenas dois dias por semana. Sair da Baixada e chegar até a Cidade Universitária, sem condução própria, sem metrô e sem o Terminal Jabaquara exigiu muito esforço e determinação. Adaptar-me ao ambiente acadêmico da USP não foi, também, uma tarefa fácil, a começar pela dimensão da Universidade bem como pelo sistema de ensino que, ao contrário das faculdades privadas, privilegiava a pesquisa.  O estudo nas bibliotecas e o estágio nos laboratórios de Cartografia, de Geografia Humana e de Aerofotogrametria exigiam dedicação e tempo. Essas tarefas eram extenuantes para quem, como eu, continuava a ministrar aulas na Baixada Santista, embora, aos sábados, atuasse como Auxiliar de Ensino Voluntária na ECA, ministrando a parte prática da disciplina Fundamentos Geográficos do Turismo. Somente alguns anos depois, após prestar concurso para o Museu Paulista, deixei o ensino básico e fundamental e passei a residir em São Paulo.

 

 

Em que momento se deu a guinada para o Turismo?

 

No início de 1970, surgiram, no Brasil, os cursos de graduação em turismo, cujo currículo incluía disciplinas básicas como a Geografia. Em 1972, inscrevi-me como Auxiliar de Ensino Voluntária, no nascente Curso de Turismo da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, junto à disciplina Fundamentos Geográficos do Turismo, passando a responder pela parte prática da disciplina. Motivada por esse desafio, comecei a desenvolver a idéia de unir duas vertentes - Geografia e Turismo. Na época, publiquei meu primeiro trabalho: "A qualidade do clima e a função balneária de aglomerados urbanos". No ano seguinte, fui contratada como Auxiliar de Ensino e assumi as disciplinas Fundamentos Geográficos do Turismo I e II, que ministrei até a minha aposentadoria, em 1999. Atividade em franca expansão, o turismo apresentava-se como um campo repleto de oportunidades para estudos, embora desafiador. A literatura específica, mesmo em outros idiomas, era escassa e difícil de ser consultada. Não existia, na época, o recurso à internet. O intercâmbio com outras universidades e com pesquisadores, principalmente estrangeiros, era moroso, via correio. O acesso à informática, entre outras vantagens, contribuiu para  agilizar as pesquisas e para ampliar o intercâmbio com o meio acadêmico  e, também, com o mercado profissional. A docência e a pesquisa revelaram carência de estudos no turismo, área que se expandia de modo descontrolado no campo profissional e pouco fundamentado no conhecimento acadêmico. As pesquisas buscando titulação e, posteriormente, a criação do Curso de Pós-graduação na linha de Turismo e Lazer trouxeram inúmeras contribuições teóricas. No Turismo, outros assuntos despertaram o meu interesse numa fase recente: a questão polêmica das residências secundárias, além de  determinados segmentos do turismo apoiados no critério motivacional que ainda exigem aprofundamento teórico, sobretudo conceitual, como o Ecoturismo, Turismo Rural, Turismo Urbano, Turismo Litorâneo, Turismo de Negócios, entre outros. A formação em Geografia, embora não fosse suficiente, foi fundamental para o meu início no campo do Turismo. A pesquisa geográfica levou-me à investigação dos aspectos contemporâneos que o turismo vem assumindo, sendo os resultados apresentados em palestras e encontros acadêmicos na Universidade  e fora dela. Publiquei vários trabalhos sobre as relações do turismo com o meio ambiente; repercussões do turismo no espaço geográfico; vínculos entre recursos naturais e tendências contemporâneas do Turismo; efeitos da globalização no turismo, principalmente aqueles relacionados às companhias aéreas e ao tempo compartilhado (time share). Retomando à questão inicial, a formação básica em Geografia levou-me ao Turismo e, nesse campo, à especialização em determinados temas. Há mais de 30 anos, apaixonei-me pelo assunto e, hoje, embora aposentada, continuo ministrando cursos, participando de Bancas Examinadoras e de eventos acadêmicos, orientando especialistas, mestres e doutores, tendo inclusive participado do Curso de Pós-graduação do UNIBERO e da implantação do Curso de Turismo da Faculdade Cásper Líbero.

 

Sua carreira se iniciou no Museu Paulista? Por que a senhora prestou concurso para o curso de Turismo, na ECA?

 

Ao contrario, iniciei minha carreira na ECA, como Auxiliar de Ensino Voluntária, tendo sido, posteriormente, contratada como Auxiliar de Ensino. Em 1974, prestei concurso como geógrafa para o Museu Paulista, acumulando funções no CRP - Departamento de Relações Públicas Propaganda e Turismo até 1976, quando o Museu Paulista me possibilitou o ingresso no RDIDP - Regime de Dedicação Integral à Docência e à Pesquisa. Impossibilitada de permanecer com remuneração em duas unidades, por força do regulamento desse regime, solicitei o meu desligamento da ECA. Naquele momento, poucos geógrafos dedicavam-se ao Turismo e, considerando a minha atuação, o CRP solicitou ao Reitor que eu permanecesse colaborando com o Curso de Turismo, sem remuneração.  Assim permaneci até que, no inicio dos anos de 1990, o Museu Paulista passou por uma série de reformulações visando transformá-lo em um museu dedicado à História. O setor de Geografia foi extinto e os demais (Arqueologia e Etnologia) foram deslocados para outras unidades da USP. Solicitei, então, a minha transferência para o CRP da ECA, no qual atuava como professor colaborador. Juntamente com o cargo de geógrafo que eu ocupava, e que era compatível em vencimentos e demais vantagens com o de docente, fui transferida para o CRP. Em 1995, por uma acertada e feliz sugestão de Victor Aquino, então chefe do CRP, prestei concurso para docente na vaga deixada pelo cargo de geógrafo que fora transformada em função docente. Assim, resolvia-se a minha situação no CRP da ECA de onde nunca me afastei desde 1972, pois continuo exercendo minhas atividades como professora-associada no Programa de Pós-graduação.

 

 

Qual foi a importância do Prof. Antonio Rocha Penteado na sua formação?

     

Algumas pessoas assumem significado especial nos diferentes momentos de nossas vidas. Conheci o Professor Penteado no dia da minha entrevista para o Mestrado em Geografia Humana. Como acontece com qualquer novato, eu estava apreensiva, temendo não ser aceita. Afinal, eram 10 candidatos para duas vagas, e eu nada mais era do que uma recém formada, saída de uma instituição privada, tentando ingressar na maior Universidade do país, Instituição sobejamente reconhecida pela excelência e pela  produtividade. O Professor Penteado era conhecido pelo rigor, pela  competência e por seus trabalhos sobre regiões tropicais, principalmente a Amazônia. Suas exigências foram salutares. Afinal, eu queria mostrar a minha dedicação ao estudo e a minha capacidade de trabalho. Eu não tinha a menor idéia do que estava a minha espera, pois a decisão pela vida acadêmica envolve compromisso, pode-se dizer eterno, na busca pelo conhecimento. Aprimoramento constante, estágios, leituras exaustivas, participação em eventos acadêmicos, enfim, produção. O mais difícil: escolher uma área, investir nela e conquistar respeito profissional. O Professor Penteado já galgara todos os degraus da carreira, sendo respeitado no meio acadêmico nacional e internacional. Tive a oportunidade e a sorte de poder contar com a sua orientação durante todo o Mestrado e por todo o Doutorado. Aprendi muito, tanto no que se refere à Geografia quanto, posteriormente, à aplicação desses conhecimentos ao Turismo, como no tocante a minha atuação profissional. Tive o privilégio de ser Auxiliar de Ensino Voluntária na ECA, junto às disciplinas por ele criadas (Fundamentos Geográficos do Turismo I e II) e de trabalhar sob a sua direção no Museu Paulista. Posso afirmar, com segurança e uma certa emoção, que o Professor Penteado foi meu guia nos intrincados meandros da vida acadêmica e o meu baluarte na busca pelo saber na Geografia e no Turismo. O que com ele aprendi repasso aos meus alunos e, felizmente, tenho colhido bons resultados.

 

 

 

De onde veio a inspiração para sua livre-docência sobre Residências Secundárias?  O IBGE já modificou a forma de registro do censo para este tipo de residência?

 

No Brasil, até 1994, apenas referências pontuais eram feitas às residências secundárias. Os estudos sobre a hotelaria predominavam, nessa época, privilegiando o atendimento e os serviços prestados. O número de leitos na hotelaria era, também, a base para a determinação da taxa de função turística proposta por Pierre Deffert. Relendo a pesquisa sobre municípios turísticos do Estado de São Paulo, realizada pelo Professor Langenbuch, em 1974, com base na proposta de Deffert, verifiquei que o autor chamava a atenção para algumas incoerências. Segundo Lungenbuch, a determinação da função turística não poderia estar apoiada no conceito de Deffert para a classificação de municípios que detinham elevado número de residências secundárias. Submetidas a esse cálculo, áreas empiricamente reconhecidas como turísticas, como o litoral paulista, não se configuravam como tal. A busca bibliográfica internacional revelou uma série de pesquisas, feitas, principalmente, nos anos de 1970 e 1980, sobre a ocorrência de residências secundárias em várias partes do mundo. Apenas no Brasil e em alguns países da América Latina, o assunto permanecia pouco explorado. Surgiu, assim, o meu interesse por esse tema e a inspiração para a minha tese de livre-docência. Devo ressaltar que o IBGE modificou a forma de registrar os dados referentes às residências secundárias no Censo de 1980.

 

 

turismo_meios_hospedagem Tulik

 

 

 

O que modificou no cenário das residências secundárias desde o ano da sua defesa (1995)?      

 

A minha livre-docência ocorreu em 1995, mas os dados obtidos no IBGE referem-se aos Censos Demográficos de 1980 e 1991. Os censos anteriores não puderam ser utilizados, pois as chamadas residências de uso turístico estavam incluídas nos domicílios vagos.  A partir do Recenseamento de 1980, o IBGE agrupou os domicílios de uso turístico na categoria denominada Domicílio de Uso Ocasional. Não analisei detalhadamente os dados do último Censo. Mas, com base em observações empíricas, em informações divulgadas pela mídia e em recentes pesquisas acadêmicas, posso dizer que o número de residências secundárias no Estado de São Paulo aumentou e continuam sendo ampliados os cinturões no entorno de cidades com mais de 40 mil habitantes, comprovando a teoria exposta na minha livre-docência. No Brasil, o tema vem atraindo um grande número de interessados. Vários alunos desenvolveram, sob a minha orientação, trabalhos sobre residências secundárias e, freqüentemente, recebo e-mails solicitando maiores esclarecimentos, ou comunicando a realização de pesquisas nessa área e, também, convidando-me para participar de Bancas Examinadoras de Mestrado e de Doutorado sobre esse tema.

     

 

 

O Turismo Rural sempre chama a atenção em debates e aulas. Pode-se afirmar que o brasileiro sente saudades do campo? Este seria um agente motivador para esta prática turística?

 

O Turismo Rural tem despertado a atenção de pesquisadores no mundo inteiro. Entendido como uma alternativa para promover o desenvolvimento de áreas rurais deprimidas, essa modalidade de turismo vem ganhando espaço, o que se verifica pelo número de eventos dedicados e pesquisas relacionadas  a esse tema. A idéia muito difundida da saudade que o brasileiro tem do campo nem sempre corresponde à realidade das pesquisas. É verdade que uma parcela de turistas segue essa motivação, muitas vezes, por ter tido contato com áreas rurais. Verificou-se, entretanto, que a maioria da demanda provém de áreas urbanas, o que desmistifica essa idéia. Ao que tudo indica, o habitante urbano busca, no contato com o campo, um ambiente diferente daquele a que está acostumado. Assim, o bucolismo do ambiente rural acaba sendo fator determinante para essa escolha. 

 

 

Livro tur

 

 

 

 A senhora foi uma das professoras mais homenageadas pelos alunos  no curso de Turismo da USP.  Se não foi a mais homenageada. Tem segredo ser tão querida por um corpo discente tão exigente?

 

Se existe algum segredo, desconheço. Tenho procurado ser coerente com os meus princípios, sincera nas minhas manifestações, racional e, principalmente, aplicada ao conhecimento da minha disciplina. Admito que tive a sorte de encontrar alunos interessados, esforçados e ávidos por aprender.

 

 

 

Por falar em alunos, pelo menos dois deles seguiram carreira acadêmica na USP.  Florestan Fernandes falava que o professor tinha o prazer de ensinar quando o aluno aprendia o conteúdo, no tempo presente. E, no futuro, quando este conseguia progredir na carreira e o mestre sabia que tinha contribuído nesta realização. A senhora concorda com este pensamento?

 

Sempre quis ser professora. Sou professora por vocação e por vontade própria. Gosto de ensinar e, também, de aprender. Fico orgulhosa com o sucesso dos meus alunos tanto daqueles que tive na USP como os da Unibero, da Cásper Líbero e de tantas outras instituições de ensino onde lecionei. O Mestrado e o Doutorado levou muitos dos meus orientandos à carreira acadêmica, destacando-se em instituições de ensino superior dos mais diversos estados do Brasil. Algumas figuras de destaque foram meus pupilos na graduação e na pós-graduação e, hoje, são meus colegas, como é o caso de Mirian Rejowiski, Célia Maria Morais Dias e Dóris Rushmann. Entre os doutores mais jovens, Débora Cordeiro Braga e Reinaldo Miranda de Sá Teles vêm desenvolvendo atividades de docência e pesquisa no CRP da ECA e, na PUC de Campinas, está a Karina Toledo Solha. Costumo brincar com meus orientandos, dizendo que tive sorte por ter sido  escolhida por eles. Concordo com Florestan Fernandes, mas acrescento que só se obtêm bons resultados quando a matéria-prima é de boa qualidade. Muitos alunos vão além do aprendizado na sala de aula, desenvolvendo trabalhos práticos e teóricos de excelente nível. Sei que contribui para essas realizações quando percebo que alguns seguem as minhas idéias sobre a docência e a pesquisa. É muito bom continuar recebendo notícias de antigos e atuais alunos. Melhor, ainda, é receber, no dia dos professores, um cartão dizendo: __ Professora, quando eu crescer, quero ser igual a você.

 

 

 

O que a senhora pensa dos geógrafos que criticam a área de Turismo?

 

Muitas obras que marcaram o início dos estudos de Turismo, no Brasil, ainda pecavam pela falta de fundamentação teórica e de método nas pesquisas, o que é normal em áreas novas como esta. Sabemos que qualquer campo de investigação começa por descrever, definir e classificar o objeto da pesquisa (o que se denomina de fenomenologia ingênua) que constitui o primeiro passo na busca pelo conhecimento. Nesse nível, estão as descrições, inventários e algumas classificações. Nesse momento, começa a busca por definições, fase interminável, já que as definições variam conforme os objetivos. Na segunda fase, com as especializações, busca-se alcançar metas sociais e políticas. Essa chamada indução ingênua evolui para modelos mais elaborados e sofisticados, trabalhos de campo aliando teoria e prática. Muitas das pesquisas em turismo estavam (e algumas ainda estão) situadas nessas duas fases preliminares. Ao contrário, a Geografia do Turismo ou a abordagem geográfica do Turismo ganhou corpo e consolidou-se graças, principalmente, aos esforços  de alguns geógrafos que priorizaram esse tema. As pesquisas de geógrafos sobre o Turismo há muito alcançaram a maturidade, abordando paradigmas que ultrapassam as preocupações ingênuas que, em alguns casos, ainda permeiam as pesquisas em turismo. O que se depreende é que a Geografia tem muito a oferecer ao turismo não, apenas, na abordagem geográfica do turismo - campo inerente a essa disciplina, mas, também, para a formação do bacharel em turismo. Deve ficar claro, no entanto, que há uma grande diferença entre  o conteúdo  geográfico necessário para fundamentar os estudos do bacharel em turismo e os conhecimentos de turismo que devem ser ministrados aos geógrafos. As críticas que alguns geógrafos fazem ao Turismo fundamentam-se  na falta de critérios e de metodologias mais precisas presentes em algumas obras. Reclamam, ainda, alguns geógrafos do caráter eminentemente técnico de  estudos voltados,exclusivamente, para o mercado. Essas críticas não são exclusivas de geógrafos, mas alcançam outros especialistas e, em alguns casos, devem-se a um certo preconceito contra o Turismo. Muitos confundem o estudo do Turismo com o ser turista; confundem, ainda, a produção acadêmica com a os guias, folhetos e outros materiais visando a promoção do turismo divulgados pelos agentes do mercado. Esse fato, que pode ser observado em qualquer livraria, lamentavelmente ocorre, também, entre acadêmicos menos esclarecidos.

 

Não poderíamos nos furtar a realizar esta pergunta: por que o curso de Turismo da Faculdade Cásper Líbero foi extinto?

 

Ter tido a oportunidade de elaborar o projeto pedagógico, de implantar o Curso de Turismo em 2003 e de trabalhar, por algum tempo, na Faculdade Cásper Líbero, foi, para mim, um privilégio e um desafio. Atuando como Coordenadora de Ensino e, posteriormente, como docente, contei com a colaboração de professores qualificados e entusiasmados que conseguiram motivar os alunos para aulas e atividades extra-classe, que muito enriqueceram o curso. A proposta do Laboratório de Turismo incluía visitas técnicas, palestras e grupos de trabalho, contribuindo para dar visibilidade ao curso. Personalidades de destaque, no cenário nacional, relataram suas experiências e seus projetos, envolvendo alunos, docentes e outros interessados em aprimorar seus conhecimentos sobre ações públicas relacionadas ao lazer e ao turismo. O estágio em turismo, componente curricular obrigatório, proporcionou a ligação do aluno com o mercado de trabalho, estimulando a colocação profissional.  A busca das empresas por alunos do Curso de Turismo da Faculdade Cásper Líbero tornou-se constante nos dois últimos anos.  A qualidade do projeto pedagógico, o interesse e a motivação de alunos e professores foi registrada pelo INEP por ocasião da avaliação feita  em 2005, quando o curso não completara, ainda, três anos. Lamentavelmente, não houve tempo suficiente para que todas essas iniciativas se refletissem no aumento da procura pelo curso. Em janeiro de 2007, segundo comunicação feita pela Diretora da Faculdade, a Fundação Cásper Líbero decidiu pela extinção do curso. Tardiamente, já no início de junho de 2007, foram divulgados os resultados do ENADE – Exame Nacional de Desempenho do Estudante realizado em 2006: o Curso de Turismo da Faculdade Cásper Líbero conquistou o primeiro lugar no Estado de São Paulo, destacando-se, também, no panorama nacional.  É notório que, desde o início, houve, por parte de alguns docentes, certa resistência à implantação do Curso de Turismo na Faculdade Cásper Líbero. Os argumentos giravam entre a falta de vínculo do Turismo com a cultura institucional, voltada para os Cursos de Comunicação Social, ali presentes, até a frágil (e preconceituosa) aceitação do Turismo enquanto disciplina acadêmica. Era esperado, portanto, que, ao longo do tempo, essas idéias frutificassem. A inviabilidade econômica do curso motivada pela reduzida procura tornou mais fácil explicar a sua extinção. Nem sequer foram considerados dois aspectos importantes que poderiam projetar o curso: o crescente interesse do mercado de trabalho por alunos do Curso de Turismo da Faculdade Cásper Líbero e a qualidade do ensino revelada na avaliação do INEP e no ENADE 2006.  Como já expressei verbalmente, ações de marketing apoiadas nesses e em outros aspectos positivos poderiam contribuir para ampliar a demanda, se houvesse interesse ou vontade da Instituição na continuidade do curso.

 

Entrevista realizada em maio de 2007

 

Responsável:

 

Prof. Dr. João Batista Neto
ECA/USP
Editor Executivo da RETC

 

jbnetousp@gmail.com

 

Revista Eletrônica de Turismo Cultural
Email: jbnetousp@gmail.com